O INOMINÁVEL











 



Deus é um órgão espiritual esportivo, que aflige criaturas através de canalhas interpostos.
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p.  11.




Não devo minha existência a ninguém, esses lampejos não são daqueles que iluminam ou queimam.
... Mas é preciso que o discurso se faça. Aí você inventa obscuridades. É a retórica.
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p. 32.



O que impede o milagre é o espírito de método, ao qual talvez eu esteja sujeito um pouco demais.
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p. 44.



Eu, DE QUEM não sei nada, sei que tenho os olhos abertos, por causa das lágrimas que deles correm sem cessar.
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p. 45.



Tudo isso caiu, todas as coisas que excedem, junto com os meus olhos os meus cabelos, sem deixar rastro, caído tão baixo tão longe que não ouvi nada, talvez isso ainda esteja caindo, os meus cabelos lentamente como a fuligem sempre, da queda das minhas orelhas não ouvi nada.
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p. 46.



Não fui sempre triste, perdi o meu tempo, renunciei aos meus direitos, desperdicei o meu trabalho, esqueci minha lição... Depois um inferninho à minha moda, nada cruel demais, com alguns condenados simpáticos em quem engatar meus gemidos, uma coisa que suspira de longe e ao longe por clarões, a piedade em chamas esperando a hora de nos promover a cinzas.
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p. 48.


"Estou fazendo o meu melhor, estou fracassando, mais uma vez.
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p. 52.




Ele é capaz de querer que eu seja feliz, já se viu disso, parece. Ou que eu sirva para alguma coisa. Ou os dois de uma vez, numa embrulhada inacreditável.
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p. 56.



Entre um começo e um fim, ora avançando, ora recuando, ora desviando, mas no fim das contas sempre ganhando terreno. A eliminar. Não tenho nada a fazer, quer dizer nada em particular. Tenho que falar, é vago. Tenho que falar, não tendo nada a dizer, nada a não ser as palavras dos outros.
... Que é que eu ia dizer? Tanto pior, direi outra coisa, dá tudo na mesma.
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p. 58;59.



Mesmo que me colassem um ânus artificial no oco da mão eu não estaria ali, vivendo a sua vida de homem quase, de homem tão somente, de homem o bastante para poder ser um de verdade, à imagem deles, um dia, meus avatares consumados.
...Então abriram o champanhe. Aí está um dos nossos! Verde de angústia. Um pequeno terrestre de verdade. Afogando-se na clorofila.
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p. 60.



O amor, aí está uma isca que nunca falhou, sempre consegui pegar alguém.
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p. 60.



Um segundo é o que era preciso me fazer suportar, depois disso teria aguentado por toda a eternidade, assobiando.
... Tenho tempo de mandá-lo pelos ares, esse circo onde basta respirar para ter direito à asfixia.
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p. 69.





 “Querida incompreensão, é graças a ti que deverei ser eu mesmo, por fim.”
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p. 71.



Eles me encheram com suas vozes, como um balão, por mais que me esvazie, é ainda a eles que ouço.
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p. 72.



Eles o colocaram no bom caminho, deram-lhe a mão até a beira do precipício, agora é com você, dar o último passo sem assistência, mostrar-lhes o seu reconhecimento.
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p. 82.



É mais fácil erguer um templo do que fazer baixar nele o objeto do culto.
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p. 95.



Aquele que busca o seu rosto verdadeiro, que sossegue, ele o encontrará, convulso de angústia, os olhos arregalados. Aquele que deseja ter vivido, enquanto vivia, que se tranquilize, a vida lhe dirá como.
... É a vida ainda, a vida em toda parte e sempre, aquela de que todo mundo fala, a única possível.
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p. 99;102.



Fala-se do tempo, dos segundos, há quem os some uns aos outros para se fazer uma vida, eu, eu não consigo, cada um é o primeiro, o segundo, ou o terceiro, tenho três segundos, e ainda assim, nem todo dia.
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p. 161.



Sim, na minha vida, já que é preciso chamá-la assim, houve três coisas, a impossibilidade de falar, a impossibilidade de me calar e a solidão, física é claro, com isso tive de me virar.
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p. 162.



Estou fazendo como sempre faço, continuando como posso.
BECKETT, Samuel. O inominável.
São Paulo: Globo, 2009, p. 163.

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