
Respiro e persigo
Uma luz de outras vidas
E ainda que as janelas se fechem, meu pai,
É certo que amanhece.
“E o que foi a vida? Uma aventura obscena, de tão lúcida.”
HILST, Hilda. A obscena senhora D.
São Paulo: Globo, 2001, p.71.
“Por não acreditar na finitude, me perdia no absoluto infinito.”
HILST, Hilda. A obscena senhora D.
São Paulo: Globo, 2001, p.19
“Por favor, queria te falar, te falar da morte de Ivan Ilitch, da solidão desse homem, desses nadas do dia a dia que vão consumindo a melhor parte de nós, queria te falar do fardo quando envelhecemos, do desaparecimento, dessa coisa que não existe mas é crua, é viva, o Tempo.”
HILST, Hilda. A obscena senhora D.
São Paulo: Globo, 2001, p.18
“Não compreendo o olho, e tento chegar perto.Também não compreendo o corpo, essa armadilha, nem a sangrenta lógica dos dias.”
HILST, Hilda. A obscena senhora D.
São Paulo: Globo, 2001, p.21.
“Ardi diante do lá fora, bebi o ar, as cores, as nuances, parei de respirar diante de uns ocres, umas fibras de folha, uns pardos pequeninos, umas plumas que caíam do telhado, branco-cinza, cinza-pedra, cinza-metal espelhado, e tendo visto, tendo sido quem fui, sou esta agora? Como foi possível ter sido Hillé, vasta, afundando os dedos na matéria do mundo, e tendo sido, perder essa que era, e ser hoje quem é?
Quem a mim me nomeia o mundo? Estar aqui no existir da Terra, nascer, decifrar-se, aprender a deles adequada linguagem, estar bem.”
HILST, Hilda. A obscena senhora D.
São Paulo: Globo, 2001, p.24
“Paixão é a grossa matéria jorrando volúpia e ilusão, é a boca que pronuncia o mundo, púrpura sobre a tua camada de emoções, escarlate sobre a tua vida, paixão é esse aberto no teu peito, e também teu deserto.”
HILST, Hilda. A obscena senhora D.
São Paulo: Globo, 2001, p.29.
“Suportaria estar viva, recortada, um contorno incompreensível repetindo a cada dia passos, palavras, o olho sobre os livros, inúmeras verdades lançadas à privada, e mentiras imundas exibidas como verdades, e aparências do nada, repetições estéreis, farsas, o dia a dia do homem do século?”
HILST, Hilda. A obscena senhora D.
São Paulo: Globo, 2001, p.34
“Desamparo, Abandono, assim é que nos deixaste. Porco-Menino, menino-porco, tu alhures algures acolá lá longe no alto aliors, no fundo cavucando, inventando sofisticadas maquinarias de carne, gozando o teu lazer: que o homem tenha um cérebro sim, mas que nunca alcance, que sinta amor sim mas que nunca fique pleno, que intua sim meu existir mas que jamais conheça a raiz do meu mais ínfimo gesto, que sinta paroxismo de ódio e de pavor a tal ponto que se consuma e assim me liberte, que aos poucos deseje nunca mais procriar e coma o cu do outro, que rasteje faminto de todos os sentidos, que apodreça, homem, que apodreças, e decomposto, corpo vivo de vermes, depois urna de cinzas, que os teus pares te esqueçam, que eu me esqueça e focinhe a eternidade à procura de uma melhor idéia, de uma nova desengonçada geometria, mais êxtase para a minha plenitude de matéria, licores e ostras.”
HILST, Hilda. A obscena senhora D.
São Paulo: Globo, 2001, p.36.
“Tudo entra dentro de mim, tudo sai. Não tem nada que só entra? Não. E Deus? Deus entra e sai, Ehud? Isso não sei. O padre diz que Deus está dentro do coração. Então espia o teu, vê se tá lá dentro. Tô espiando. Taí? Não.”
HILST, Hilda. A obscena senhora D.
São Paulo: Globo, 2001, p.42-43.
“Querido, perdoa incompreensão, recusa, indiferença de muitos dias, perdoa solidões, os contatos com o nada, a palha colada à alma, perdoa se não te dei claridade, emoção, se quando tu me querias os olhos se banhavam numas águas do passado.”
HILST, Hilda. A obscena senhora D.
São Paulo: Globo, 2001, p.49-50
“Nomeia as ilusões, afasta-te da vertigem.Vejo passar agigantados sentimentos, excesso ciúme impotência, miséria de ser.”
HILST, Hilda. A obscena senhora D.
São Paulo: Globo, 2001, p.56
“Quem foi, Ehud, que apagou meu envoltório de luz, quem em mim pergunta o irrespondível, quem não ouve, quem envelhece tanto, quem desgasta a ponta dos meus dedos tateando tudo, quem em mim não sente?.”
HILST, Hilda. A obscena senhora D.
São Paulo: Globo, 2001, p.73.
“Ter sido e não poder esquecer. Ter sido. E não mais lembrar. Ser. E perder-se.”
HILST, Hilda. A obscena senhora D.
São Paulo: Globo, 2001, p.76.
“Você sente às vezes o irreal desses ires e vires, o inteligível de todos os passos, hen, sente?”
HILST, Hilda. A obscena senhora D.
São Paulo: Globo, 2001, p.78.
“Boas e vadias e solenes ilusões, movemo-nos pelas ilusões, gigantescas e fofas, fiquei lumpesinando dentro delas e como gostei.”
HILST, Hilda. A obscena senhora D.
São Paulo: Globo, 2001, p.80.
“Fêmea e força. E continuo no roteiro da saudade dos meus mínimos.”
HILST, Hilda. A obscena senhora D.
São Paulo: Globo, 2001, p.83.



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